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2005-02-27

A Rosa

Deu-me asas Cupido!
Asas que às nuvens, desde a infância, me elevaram.
Julguei, ao ver-me ali subido,
Ser um príncipe – dos que em lendas me pintaram!
Mas, oh, triste sorte! Triste de mim!
Que ao ver-me subido assim
Também preso me senti!
Não havia princesas por lá…
Nem castelos, nem fadas, nem reinos,
Nem os contos me pareciam já verdadeiros...
Mas... eis que vislumbro de lá
Uma rosa, graciosa como um botãozinho.
Senti-me como o de Saint-Exupéry, principezinho
– Sem flor, contudo –
A viver passando então
De rosto apoiado na mão,
Num contemplar de renovada ilusão,
Com medo que a rosa murchasse – não desci
E não descendo não a colhi:
Receando que a rosa murchasse...
Fiquei contemplando apenas – até que outrem chegasse
E lograsse acercar-se, abeirar-se tocá-la, beijá-la...
Passei, entristecido, a orvalhá-la
Com risos que eram beijos - diluídos beijos dos olhos
Que lhe lançava aos molhos
Até... até que da vista a perdi...



Vila Franca do Campo, Dezembro/97

2005-02-14

Sensos

Voam almas lá no alto, etéreo prado,
Voam mentes num querer desenfreado
E no voo um desejo sem ter fim
Que ateia o sangue num ardor de amor sem fim!

Arde a ânsia nos olhares seduzidos,
Arde um brado nos quereres incontidos,
Arde o peito no aflorar que, forte, apraz,
No lume: leve roçar - vai... Não vai... e “Traz!”

Rodopiam os sentidos embrasados,
Surgem laços dos abraços agitados,
Violentando o pudor num frenesim,
P’ ra dar ao peito, de lascívia, um festim.

Chama infinda, avidez, sofreguidão...
No lascivo abandono à paixão;
E sem dar trégua à carícia sensual:
Curvas trejeitos, doce estio, vendaval!...

Suam corpos num ardor insustentável,
Brota ardente o doce cio do vulcão,
E no íntimo o desejo incontrolável
Ateia o sangue extasiado na visão.

Nesse rio, nesse mar, já ofegante,
Ainda aceso um grilhão inebriante,
E nas veia sensuais vai extasiado
O doce odor de perfume incinerado.

Saciados! Em olhares divertidos:
Olhos nos olhos cravados - sem pejo!
Em sorrisos, em promessas dos sentidos.
– Não pensem mal que mal não tem - foi só um beijo

Suco ardente

Esse grito que me chama e me devora,
Essa chama que me abrasa o coração,
Esse sonho aspira e me aflora,
Essa flora que me tenta a tentação,

Esse brado que me beija e me enleia,
Essa teia que me alenta na demência,
Essa brisa que me aferra e me incendeia,
Esse fogo que me abisma a inocência,

Essa gota de vulcão num mar de “cio”
Esse rio que me leva à perdição,
Esse favo onde brota doce estio,
Esse prado onde “briza” um turbilhão,

Essa doce e quente fonte de ternura,
Esse brilho cor de rosa e de candura,
Essa rosa que desflora a inocência,

Esse enlevo nessa pétala de flor,
Esse favo de ilusão, esse rubor,
Esse oásis, esse néctar - Esses sábios,
Tão fragrantes, tão charmosos - São teus lábios!!

Sonho desfeito

Apunhalado! este peito tão dorido,
Golpeado pela dor da solidão!
Nesta alma uma vida sem sentido
E a nostalgia alagando o coração!

Sinto o vento afagar o meu caminho,
Sinto a chuva, cor de sangue, no olhar;
E cá dentro, num jardim descolorido,
Sobre o mel vai caindo um acre mar.

É um sonho o punhal que desferia
Os seus golpes neste peito inflamado,
Empunhado pela rosa que luzia
Neste sonho, por si também, engrilhoado.

É, porém, num triste esgar que vou sorrindo:
Seu destino segue noutra direcção!
Aqui levanto - mas ali já vou caindo...Sob o peso da nostálgica ilusão!

Quedas

Caem as folhas de efémeras cores,
Da alma dorida na luz dos amores;
Caem as gotas de sangue, de fel,
Do peito ferido em sonhos de mel!

Caem as sombras, em bandos de açores,
Ferindo o olhar de húmidas dores;
Caem os sonhos, nos flocos de fel,
De um labirinto de cores de mel!

Caem palácios, de quadros sonhados,
Das mãos de um pintor - num peito criados!
Caem... caindo em si... caindo em dor...

Caindo no acre e frio sensabor
A quimera de ver insano amor
Voar - no doce utópico dos prados!!

Sonhador

Sou sonhador...
Sonhador sem alento!
Sonhos sem cor:
- Minha dor e tormento!
Sou sonhador...
Poeta a escrever!
Canto a nostalgia
E sede de alegria
Em cada dizer!

SUSPENSÃO

UMA LÁGRIMA
É UMA GOTA DE VIDA..




Escorrem sangue minhas nuvens cor de céu
De um rio cá do peito macilento;
E na alma um tornado de tormento
Ocultado por um agridoce véu!

Minha alma desde a queda da utopia
Tem por ninho um abismo de acre fel;
Minha mente qu’ em mel tórrido luzia
Voga gélida por trevas d’ acre mel!

E meu coração coroado de espinhos,
Ornado de arpões e vestido d’ urtigas,
Pranteia desfeito em gélidos ninhos;
Num leito de pedras, suspenso - sem vida!

Por entre um jardim de rosas,
Malmequeres e outras flores,
Erguia-se majestosa,
Vestida de mil esplendores,
A flor-ciúme-de-flores!...



MIRANDELA, 93/Jun.

Perguntei às estrelas
Se queriam brincar comigo
- Que não! - disseram tão belas...

Depois... depois outro dia:
- Brinca comigo andorinha...
- Não tenho que voar.

Perguntei à noite,
Perguntei à nuvem...

E o sol: Olá! Viva senhor sol,
Podemos conversar?
- Estás louco rapaz?
Não vês que estou a brilhar?

E assim foi... com este e aquele
E mais outro, e outro, e outro...
- Ninguém!... Ninguém quer brincar!...
E eu aqui estou... tão só como sempre;
E nem um inocente
Eu posso abraçar...

Sova constante


Na noite,
No frio
Deste quarto vazio.
Em cada segundo o açoite
Da nostalgia;
De repente agiganta-se,
Forma-se Adamastor
E eu encolho-me,
Enrolo-me
E fecho os braços,
O mais forte que alcanço,
Num abraço
De desespero...
E não alcanço o que quero...
Como tantas outras vezes!!


Vila Franca do Campo, 98/04/02

Pecados II

Fecho os olhos à noite
E ergo os olhos ao céu...
Deixando que o vento açoite
Est’ alma perdida no breu
Por força desta torrente
De pecados - que tão vilmente,
N’ alma, o mundo me cometeu!

Pecados que não são raros,
Que roem a mente e o corpo
E mesmo estando absorto
Contorço a alma em espasmos
Das dores que tais pecados
(Pecados que não são raros!)
Me ferem os sonhos dos céus.

Sonhos! Sonhos qu’ a alma elevam
Que junto com ela me levam
Aos sonhos que são só sonhos
- Que são só meus, que são tristonhos,
Quase medonhos - Ainda que levem
Consigo uma flor: Pecados meus
E estes só podem ter vida nos céus!


Vila Franca do Campo, 98/02/02

Pecados

Deu-me asas Cupido!
Asas que às nuvens, desde a infância, me elevaram.
Julguei, ao ver-me ali subido,
Ser um príncipe, dos que em lendas me pintaram!
Mas, oh, triste sorte! Triste de mim!
Que ao ver-me subido assim
Também preso me senti!
Não havia princesas por lá
Nem castelos, nem fadas, nem reinos,
Nem os contos me pareciam já verdadeiros...
Mas... eis que vislumbro de lá
Uma rosa, graciosa como um botãozinho.
Senti-me como o de Saint-Exupéry , principezinho
- Sem flor, contudo -
A viver passando então
De rosto apoiado na mão
Num contemplar de renovada ilusão
Com medo que a rosa murchasse - não desci
E não descendo não a colhi:
Receando que a rosa murchasse...
Fiquei contemplando apenas - até que outrém chegasse
E lograsse acercar-se, abeirar-se tocá-la, beijá-la...
Passei, entristecido, a orvalhá-la
Com risos que eram beijos - diluídos beijos dos olhos
Que lhe lançava aos molhos
Até... até que da vista a perdi...

Vila Franca do Campo, Dez./97

Tua na flor

Colho uma flor
Pétala a pétala vou-a despindo
E ela sempre sorrindo
Nem vai perdendo esplendor
E tiro uma e outra pétala
Cada vez com mais ardor
E ela à minha ilusão
Na última diz-me que
– NÃO


Vila Franca do Campo, Março de 1998

(sem título)

Sou um pedaço de gelo
Gelado p’ las circunstâncias
Do ido e indo degredo.
Contudo por fogo tocado
Liquefaço-me em desvelo
Qual lobo-ovelha-mansa
Faço músicos os dedos
Dos sentidos a harpa
E do corpo o público
Do fogo que em ti zarpa

Metafórica aguarela

Aquela linha recta e distante
Onde o recorte
Entre céu e mar
É apenas um instante

Calmo, calmo e constante
Por sobre este uivante
Vento e mar
O pássaro no alto
E o teu olhar
Altivo e distante
Sempre que me olha
E se te olho - mais ainda nesse instante

E o navio que navega
Junto à linha do horizonte
Que não me leva
Nem a mim nem ao sonho
Nem o sonhar me quebra

E o bote onde remando
Vai alguém tanto a custo
São meus passos chorando
Arrastados
Ao acaso
Sem destino no crepúsculo

Aquele ondular constante
Das águas do mar
A fazer-me lembrar
As tuas ancas
O teu menear

E a onda furiosa
Que sobre si quebra e dobra
Assim meu corpo retorcido
Em cada nova amarga prova

E esta sonora alvura
Este níveo troar
É o rugido do meu peito
O coração a uivar

A onda que recua
Que o avanço d’ outra quebra
Mais não é que tu e eu
Eu que aspiro a costa
Tu a vaga que me sustém
Sempre aquém
Da areia em que nos sonho

Estes salpicos d’ onda
Que a rocha insensível
Pelos ares estraçalhou
São aguarela dos penares
Que o fogo inextinguível
Da ânsia a que me devotaste
Nos olhares me lançou
- Não foram eles da cor dos mares

Os salpicos que me chegam
Trazidos de baixo p’ lo vento
São as lágrimas que do peito
Me sopra o sofrimento

E eu aqui plantado
Ausente e só - a contemplar
Nada mais me identifica
Que um matumbo aparvalhado

E aquelas nuvens
Que se recortam no ar
São apenas mais uns fumos
Do meu utópico lembrar
Do meu quimérico viver

E um pouco mais negro
Menos distinto o horizonte
Assim como o teu olhar
Quando m’ encontra defronte

O sol que se esconde
Que nas águas se reflecte
É meu amanhã e depois
Até que se completem
Os dias de nós os dois
Até que minha vida
Advenha noite
E a lua me conduza

E o frio chega
E o breu pesado e denso
Vai tornando-se intenso
E eu sinto-os
E a lua não chega
Nem ela nem o mar
Nem o vento
P’ ra amenizar o tormento
Que a cada momento
Me aguilhoa
Me engrilhoa
Porque não estás aqui
Porque estás comigo
Porque cada vez mais
Como o horizonte
Te sinto
Menos distinta
Menos diáfana
Mas mais distante


Praia “Vinha da areia”, V.F.C. 98/03/21

O meu coração é uma ilha

No meu peito, tumultuoso mar
Ondula;
Espraia-se-me violento, no olhar!
Cada onda,
Convertida em ternura, parte-se
Caindo pelo mar
P’ ra, de novo, ali, furiosa, ondular!

Cada onda
Que não me sobe ao marinho olhar
Rebenta com furor
Nesta ilha onde “Amor”
Largou sementes de paixão:

Ali, acostado,
Há um barco pequenino
Baptizado de “H”
É a flor da minha ilha
Que outro não há
- Nem quero por cá.


Não há, contudo,
Como fazer navegar
Neste tão revolto mar,
Neste oceano profundo,
Um tão frágil barquinho
Sem ajuda p’ ra vogar.


E ali está ele,
Nesta ilha abandonado,
Sem lograr alcançar
A margem do outro lado,
Onde há um continente,
Onde seria contente
Por noutro cais acostar!

Bar Pub “Cais da Vila” - Vila Franca do Campo, 98/03/16

Vale a pena

De que me vale alojar
Este mar de ternura no peito?
De que me vale voar
Nas asas de um sonho desfeito?
Vale! Valerá sempre,
Se, um dia só, um instante sequer,
Tu te dignares olhar
P’ rá dor que vai neste peito!


Vila Franca do Campo, 98/03/11

Coração/Razão

Ouve, ora ouve,
Lacrimoso coração,
Ouve o que grita a voz da razão:
Larga, foge às utopias,
Não sonhes,
Não te elances pelos ares;
Sente e vê
Que o perfume que se eleva
Anelante, não provém
Da rosa de penares,
A fragrância que aspiras,
Enquanto suspiras, mais não é
Que a primavera a chegar.
Não! Não se trata dessa flor
Que ofusca - teus réprobos olhares.
Vê, ao menos, nessa dor
Como, esquiva a teus pensares,
Pode, ela também, sonhar
Como tu - mas noutros voares!


Vila Franca do Campo, 98/03/12

Tu... o vento e o mar!

Sentar-me num rochedo
À beira-mar
E verter no papel – neste degredo,
O mar tumultuoso
Que trago dentro d’ alma!
Dispor às carícias do vento
O meu corpo em agridoce penar,
Fechar os olhos
E sentir
No vento as tuas mãos,
Na maresia o teu perfume
E lá em baixo, na areia,
No espumoso leito contigo me deitar
À luz pálida da lua...
Contudo acordo e vejo
Que tudo isto não passa de utopia,
Que tudo isto aviva o meu penar,
Que tudo isto não vale sequer
Um daqueles momentos
Tristes – mas quão felizes –
Em que o acaso me permite,
Com os olhos, teu lindo rosto beijar.

Restaurante “Aninhas” - Vila Franca do Campo, 98/02/22

EU... CONTIGO MULHER

Eu,
Para ti mulher
Que consigas
Nos meus lábios lançar
Teias urdidas
De prazer,
Tenho nos braços,
Para te dar,
Um ninho
De inflamado carinho,
De ternurento prazer...

Eu,
Para ti mulher
Que consigas
No meu peito lançar
Botões do perfume
De teus lábios,
Tenho os braços
Para te dar
E nos abraços
Um ninho
De grande, grande carinho
E uma brasa de prazer...

Eu,
Para ti mulher
Que consigas
O peito me estremecer
Para nele semear
Um grão
De sentido prazer,
Tenho os braços
Para te dedicar,
Um mundo
De aveludado prazer
E dos olhos
Que te serão reservados
Descer-me-ão
Aos lábios e às mãos
As agulhas
Que um manto
De ternura e prazer...
Irão em teu corpo tecer

Eu, para ti mulher
Que apenas pretendas
Teu peito me dar,
Irás caminhar
Por sendas
Que te farão acordar
Esta brasa
De iceberg disfarçada
Que te fará viver
Um sonho...
Um sonho do tamanho do mundo,
Do tamanho da eternidade
Sem nunca dele acordares;
E, para ti,
Meus braços
Serão um ninho de ternura
De dulcíssima loucura
Maior que o mundo e o pensamento;
Meu peito
Um devoto ardente
Que te fará seu altar
E que a cada momento
O pensamento
Irá te imolar;
Meus olhos
Que só saberão te venerar
Irão em teu peito
Certeza, ternura, paz semear;
Minhas mãos
Revestidas do mais suave veludo
Só saberão
Tua pele, teu peito, teus sentidos - deliciar;
Meus lábios,
Fonte de inesgotável ternura,
Serão o cálice
Que te ofertará
Inebriante néctar em fogo
Que beberás
Perdida de infindos desmaios de prazer;
Para ti,
Que encontres a chave
Que acorde este peito,
Serei um vulcão de ternura
Que irá te banhar
E em ti
Hei-de lançar um paraíso em fogo...
... E de nós nascerá um novo “Cupido”!!

Vila Real, Março/97

Enlevado

Eu,
No enlevo
Dos teus braços, mulher,
Sou brasa acesa
De ternura e prazer
Mas
Está ainda por vir
A que há-de dar-me o vinho
Que da brasa há-de fazer
Incandescente vulcão
De Ternura e Prazer
E fonte de um mar
De Ternura e Carinho...

Vila Real, 97/03/20

Roda de Água

Meus olhos são duas fontes
Que a flor do peito me regam,
Ao receber água suspira
E choros à vista me eleva.
E enquanto que a flor veneram,
As fontes que são os meus olhos,
Enviam gotas aos molhos
À fonte d’ onde vieram!

Vale de Asnes, 96/11/01

Falo de ti

Falo de ti às nuvens - quando vêm,
Falo de ti às águas dos regatos
E dos rios
Falo de ti às águas pelas estradas
Que em soluços do alto vão caindo;
E de tanto falar em ti,
E porque ao mar chegam essas águas,
Há já uma gota azul em todas as praias,
Já nas areias — em desmaios!
O mar desenhou,
Saudosa e sonhadoramente,
O nome lindo
Que à pia Providente
Agraciada, a tua mãe te deu.

Vale de Asnes, 96/11/23

"insert coin"

A tua vida
É um jogo
Onde
Se não tens um acidente fatal
Vences meta a meta
Até à final
E aqui acabou-se o jogo
– acabou-se a vida
sem insert coin

Diante do fogo

Diante
Do fogo
De teus olhos,
De teu ventre
Não sei senão
Dizer
Agora, De novo,
Outra vez
Sempre.

Vila Franca do Campo, 1999-06-08