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2005-05-01

Beijo triste

A noite entrou em mim!
Procuro nela o luar;
Não tem!...
Só nuvens sem fim.Que vêem meus olhos beijar!...

Mundo

Este mundo que é meu
E não é de ninguém!
Não é asa, nem grito,
Nem oásis também!...

Este mundo que é meu,
Que não é de ninguém!
Não é nuvem, nem céu,
Nem incenso também!...

Este mundo
Não é mundo, não sonho,
Não visão de além...

Este mundo
Que é meu: de ninguém!
É lume, é trovão,
É abismo também
... E é bola de sabão!...


Mirandela, 93/Jun.

Queria ser!...

Queria ser estrela ou ave do céu,
Queria ser nuvem, brisa do mar,
Ser rio ou só riacho – a cantar!
Queria ser asa do etéreo véu,

Queria ser palma de um ledo ilhéu,
Dançando ao vento sob o luar!
Vogar oceanos, rir e voar,
Como gaivota que vive no céu!

Qu’ ria ser pluma num doce voar,
Qu’ ria ser neve num doce tufão,
Queria ser, num oásis, a flor

Que vive feliz e livre de amor...
Queria ser!... Mas sou... sou prisão!
Captiva desventura e solidão!!!


Mirandela, 93/Agosto

Auto falácia

É mais fácil
Enganar-me, que tu;
Quando afirmas
Que é bela:
Vês...
Eu sinto!
Logo,
É mais fácil
Enganar-me eu
Que enganares-te tu
- E como me engano às vezes!!

Divagar em ti!

Cabelos de vento! Fios de alar!
Rosto de céu! Corpo de mar!
Olhos de mel! Lábios de rosa!
senda de alento! Face fogosa!

Corp' em serpente – corpo que fito!
Lábios de fogo – doce delito!
Seios de alento – senda fogosa!
Corpo d' invento – visão ansiosa!

Seios: senda pecaminosa!
Olhos de mosto! Face gulosa!
Mimo de brasa – fogo de rosa!
Corpo de ninfa – vénus fogosa!


Esperma de sol
Em ondas de flor
Encarnas num rol
De lendas de amor

Pintas de verde
Com brilho de fogo
São tochas de mosto
Onde me afogo

Esperma de sol
Algas em flor
Pintas de verde:
Tochas de amor...

Jazigo de solidão

Acordo e vejo ao lado
O frio comigo deitado,
Fecho os braços num abraço,
Em sinal de desespero, e fico de olhos baços
Doridos pelo gelo
De tão pesados laços!
E num grito de dor d' alma
Perco-me em sonhos...
Quase medonhos!
Presos na mente,
Pálida, retorcida e doente, enquanto
Por entre o acre pranto
Ouço o vento ao longe
Bramindo dentro de mim,
E neste bramido sem fim
Ergue-se a alma em pedaços
Desfeita em mil gemidos
E dos sentidos ais sem fim
Saem-me gotas lancinantes,
Trementes, aos molhos,
Dos túmidos olhos,
Caindo em golpes rudes, penetrantes,
No desventuroso peito.
E, sem forças,
Sem alento p´ ra lutar, esmoreço
E permaneço
Neste jazigo de solidão.

Vila Franca do Campo, 98/10/13 – 5h20m

Coração finado

Não sinto já no peito o coração
Que se perdeu – na labuta bélica dos sentidos!…
Não sinto já no peito o coração
Que se finou – trespassado pela flecha dos cupidos!

Vila Franca do Campo, 1999