Poesia ou intenção de criá-la
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2005-06-26
Devaneio
Tua face:
Sedosa, no mimo, a frescura da rosa!
Teus olhos
Um ninho, um lago de ternura e carinho!
Teus lábios:
Mimosos… carnudos, fogosos!
Teus seios:
Plumas … leves como plumas!
Saltitam: e, altos, incitam, levitam nos olhos!
Teu ventre:
O limiar da semente, do fogo demente!
Onde mergulho, onde fagulho, onde me afogo!
E o olhar, como eu, ansioso!!!
Mas falta o alento,
Mas falta o intento…
Vila do Porto (Santa Maria – Açores), 2005-05-10
2005-06-18
Do acordar até
Acordo...
E vejo que estou só...
Que nada vivi!
Relembro hora a hora!
Como acordei só;
Enquanto o dia passa fatal,
Sem pressa, sem pejo, sem dó...
Num penoso arrastar...
E eu... sempre a suspirar...
A sonhar... a querer o inalcançável
E não paro de lembrar!
E lembro o quê?
De ti.. Oh! e sinto,
Sinto às vezes uma saudade tão forte,
Um desejo enorme de te abraçar
- Desejo por vezes insustentável -
Que nos olhos me põe explosivas lágrimas,
Que ali permanecem sem rebentar,
E a vista distante e túmida,
Distante, ausente e dorida...
Que os olhos ardem quase a estourar
Pois que neles não cabem peito e lágrimas,
Contudo ali sobem, ali - permanecem
E os olhos ardem periclitantes,
Pelos mil “sonhos” que neles nascem,
Pelos mil “sonhos” insustentáveis
Que vivem por ti, que fazes nascer,
Que neles vivem até morrer,
Que neles choram até renascer...
Durante o sono,
Desde o alvor,
Até a noite cair - a noite!
A noite linda! confidente amiga!
A escuridão balsâmica, compreensiva!...
E o mar que me chama!
Estendo-lhe então minha alma suspirosa,
Cansada e pálida
E o mar, o amigo mar,
Responde-me com ondas e vento,
Vento frio em que sinto
O beijo quente da tua boca...
Fecho os olhos...
Oh! como queria então envolver-te
Num carinho tão imenso como o mar,
Como queria então
Num forte abraço te amar!
Oh! E se num destes momentos surgisses
E que me visses
Como te vê meu peito, alma e coração,
E que aceitasses
Em meu cálido barco de ternura embarcar,
E navegar...
Meus dedos poetas,
Em tua sedosa pele,
Saberiam desenhar
Fogosos, românticos temas,
Mil poemas de amar,
Hinos de inebriar...
E meus lábios, venerantes,
Não te iriam beijar,
Antes, delirantes,
Sobre os teus passear,
Ateando
Em cada boca o desejo
De na outra voar.
E tudo isto p’ ra acontecer – bastava
Um dia eu abraçar
Um abraço do teu olhar
– Mas, de novo, após a noite... acordo...
E vejo que estou só...
Vila F. Campo, 98/03/15
Ao acaso...
P’ las ruas - calcorreei uma a uma
Do jardim ao cais...
Dali p’ ra lado nenhum
Pesado...
Arrastando cada passo...
Sobre mim a pesada mão
Da nostalgia!
Solitário
Ao acaso, vagueei,
Segui
Olhos postos no chão,
No mar
Divagante à beira mar
Sem ter ninguém
Sem ter ninguém p’ ra visitar,
Sem ter ninguém p’ ra conversar...
Sem ter ninguém...
Ninguém!...
Como diz de longe o mar
E pelas ruas, ao acaso, divaguei
E de longe - longe...
A voz do mar chamava
Repercutindo
A voz chagada
Do macerado coração
Que retorcido no peito
Vão chorando ilusão...
Ilusão, paixão: Solidão!!
Vila Franca do Campo, 98/03/21 (01h50m)
Sou um pedaço de gelo
Gelado p’ las circunstâncias
Do ido e indo degredo.
Contudo, por fogo tocado
Liquefaço-me em desvelo,
Qual lobo-ovelha-mansa;
Faço músicos os dedos,
Dos sentidos a harpa,
E do corpo o público,
Do fogo que em ti zarpa .
Rumo ardente
Abre teus olhos à muna vista,
Deixa-me fixá-los
Eu quero neles ver o meu destino
Fixa-te nos meus
Funde-te comigo - Lindo ocaso -
Acalma este lume em desatino!
Abre teu peito à minha voz,
- Deixa-me penetrar-te! -
Eu quero que tu sejas o meu ninho.
- Vem deleitar-te! -
Voa para mim à desfilada:
Embate, consome, alenta, devora!
Vem, entrancemo-nos!
- Criar uma lenda é permitido:
Sejamos os heróis
De um outro Camilo! -
Icemos o mastro, ignoremos o perigo!
Mudemos a história, os amores traídos.
Vem doce concha, minha pérola!
- Serei Cyrano -
Unamo-nos neste querer tirano,
- Vem vençamos -
Lutemos até à exaustão,
Permitamo-nos nascer uma outra obra.
Respeitemos a ânsia ardente
Deste peito inflamado!
Sejamos duas aves em desvairo!
E eu, e nós
Insaciáveis de ternura!
Criemos um oásis infindo no tempo,Fiquemos indefinidamente neste enleio!
Dor
No meu quarto pela noite, mal deitado,
Acre estranho, no vazio sentimento,
Que me aperta e me rói o pensamento,
No negro voo pelas sombras do passado!
Mas que estranha e depressiva sensação!
Que sem medo no tremor eu desafio:
Meu olhar, no negro mar, negro navio,
No agridoce navegar pela solidão!
Sorriso fingido
Angústia escondida
Por sorrisos fingidos:
Sorrisos na face
Mas a alma, triste,
Na dor persiste
Em pranto afogar-se!
Meus olhos baços
Em sorrisos falsos
- Tenebrosa luz!
Se não ocultasse
Um brilho na face...
- O pranto reluz!
O coração chora
E na alma aflora
Esse pranto triste
Mas sempre escondido
Por esse fingido
Sorriso que viste!
Pensar
Pensar! Não quero pensar:
Pensar é dor, é “viver”;
Antes morrer que pensar,
Que pensar é sofrer!
Tal asa deixou de voar,
- Presa em frios grilhões! -
Passou a sofrer, a chorar
Desesperos em vez d’ ilusões!
E eu já não quero pensar,
Não mais! - Pensar é sofrer!
Recuso pensar... e viver
Suspiros por morrer.
Não! Pensar não! Não mais!
Não mais, que pensar é chorar...
E o voo de gumes tais
Já me levou o sonhar!...
Mirandela, 94/Mar.
2005-06-02
Quase
Quase ignoto já!
Este caminho devoto
Que percorro sempre só…
Quase morto já!
Este sentido perdido
Que de novo me aguilhoa…
Quase morto,
Quase ignoto...
Quase!...
E eu crédulo, moribundo
O deixei
P’ ra de novo atormentar-me
– Oh! Antes o tivera matado!!
Do sonho ao mar
...Ouço sussurros chegar
Beijos que o corpo me cobrem
Abandono-me a chorar
A gemer e a sonhar
Àqueles lábios
Ao tão doce sussurrar
Sinto um fogo me gelar
Me estremecer por completo
Eras tu! Linda, divinal
No teu sorrir anelante
Ainda mais pura que anjo
E ao ver-te e intentar te abraçar
Vi-me caído no mar.
E os dias que passam dos trinta
Trinta anos!
Trinta anos de tristezas,
De sofrimentos, de utopias
De paixões imerecidas
- De abandono e solidão...
Trinta anos!
Isolado da paixão;
Havendo sempre mais perto,
Que ninguém,
A solidão;
Tendo sempre deserto
O caminho da ilusão!
Trinta anos
Mal Vividos
Sempre só,
Só sentidos no sonhar
A querer, a desejar...
Mas sem ter por quem chorar...
Trinta anos – TRINTA! –
Trinta anos
E alguns dias
Contando por alegrias
Os dias que passam dos trinta!...
Reactivado
Acreditámo-lo extinto!
Malfadado coração.
Contudo, o maldito destino,
Trouxe de novo a erupção!
Bastou olhar em seu olhar;
Ouvir – tão doce! – o seu falar;
Olhar tão quimérico rosto,
Tão suave perfil, tão angélico ar...
E tu, e eu, e nós
Vimo-lo – oh, coitados de nós! –
Atados em graves nós,
Mais graves ainda que outrora.
Tão graves que entrou em fusão
O frio que era nosso viver.
Reactivou-se o vulcão
E agora
Trago nos olhos a cratera
Que vai largando por terra,
Terra que ela pisa,
Tépidas gotas de lava,
Expelidas pelo oceânico fogo
Que lavra inexorável
O gelo que vai neste peito;
E nem este gelo desfeito
Nem o frio que de lá provém
Acalmam este vulcão,
Sustêm esta fusão
Nem nos trazem libertação!
Oh! Coração!
Que, doravante, em chamas,
(Chamas que consomem num fogo imenso,
Intenso) iremos viver tão duro
Tremendo arrastar d’ horas.
Enquanto eu choro
Enquanto tu clamas
E nada logramos...
Vila Franca do Campo, sexta-feira 13 de Março de 1998
Coração/Razão
Ouve, ora ouve,
Lacrimoso coração,
Ouve o que grita a voz da razão:
Larga, foge às utopias,
Não sonhes,
Não te elances pelos ares;
Sente e vê
Que o perfume que se eleva
Anelante, não provém
Da rosa de penares,
A fragrância que aspiras,
Enquanto suspiras, mais não é
Que a primavera a chegar.
Não! Não se trata dessa flor
Que ofusca – teus réprobos olhares.
Vê, ao menos, nessa dor
Como, esquiva a teus pensares,
Pode, ela também, sonhar
Como tu – mas noutros voares!
Vila Franca do Campo, 98/03/12
