Acordo...
E vejo que estou só...
Que nada vivi!
Relembro hora a hora!
Como acordei só;
Enquanto o dia passa fatal,
Sem pressa, sem pejo, sem dó...
Num penoso arrastar...
E eu... sempre a suspirar...
A sonhar... a querer o inalcançável
E não paro de lembrar!
E lembro o quê?
De ti.. Oh! e sinto,
Sinto às vezes uma saudade tão forte,
Um desejo enorme de te abraçar
- Desejo por vezes insustentável -
Que nos olhos me põe explosivas lágrimas,
Que ali permanecem sem rebentar,
E a vista distante e túmida,
Distante, ausente e dorida...
Que os olhos ardem quase a estourar
Pois que neles não cabem peito e lágrimas,
Contudo ali sobem, ali - permanecem
E os olhos ardem periclitantes,
Pelos mil “sonhos” que neles nascem,
Pelos mil “sonhos” insustentáveis
Que vivem por ti, que fazes nascer,
Que neles vivem até morrer,
Que neles choram até renascer...
Durante o sono,
Desde o alvor,
Até a noite cair - a noite!
A noite linda! confidente amiga!
A escuridão balsâmica, compreensiva!...
E o mar que me chama!
Estendo-lhe então minha alma suspirosa,
Cansada e pálida
E o mar, o amigo mar,
Responde-me com ondas e vento,
Vento frio em que sinto
O beijo quente da tua boca...
Fecho os olhos...
Oh! como queria então envolver-te
Num carinho tão imenso como o mar,
Como queria então
Num forte abraço te amar!
Oh! E se num destes momentos surgisses
E que me visses
Como te vê meu peito, alma e coração,
E que aceitasses
Em meu cálido barco de ternura embarcar,
E navegar...
Meus dedos poetas,
Em tua sedosa pele,
Saberiam desenhar
Fogosos, românticos temas,
Mil poemas de amar,
Hinos de inebriar...
E meus lábios, venerantes,
Não te iriam beijar,
Antes, delirantes,
Sobre os teus passear,
Ateando
Em cada boca o desejo
De na outra voar.
E tudo isto p’ ra acontecer – bastava
Um dia eu abraçar
Um abraço do teu olhar
– Mas, de novo, após a noite... acordo...
E vejo que estou só...
Vila F. Campo, 98/03/15