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2008-01-12

Finalmente... EU de novo!

Finalmente!!

O desejo vingou!
O querer mudo
Foi martelando, segundo após segundo,
o fado prolongado,
Que se divertia, dia a dia,
ante o sussurro gemido
do querer...

Finalmente!
O querer - que nem água -
Que incessantemente
martelava oposição ao fado
Venceu!

Finalmente!
O fado cedeu,
O fado perdeu,
O Querer venceu,
E eu
Sou, quase já, EU de novo!
Finalmente!!!

2007-01-04

Progressão retrocesso

Lançado pelo destino
Caí num pedaço de nada!

Ciente que era do retrocesso,
Na vã tendência de querer ser alto,
Lancei os dados - e fui vencedor!

Peguei na soma
Dos pontos dos dados e
P'ela mão do meu fado,
Em alado condor,
Vaguei ao deserto da humidade!

Ciente que era do retrocesso!
Tomei de surpresa, num como regresso,
O meu retrocesso avante.

Degredado – ciente à partida! –

Num grão de mar!
Porém com o credo de um dia voltar!

Sim, hei-de voltar...
Contudo, entretanto,
Entre raiva e pranto
Esvai-se o longo tempo.
E eu
Com o credo de um dia voltar
Acompanho o seu arrastar.

Enquanto, neste grão de mar,
Vou – arredio de nativos
Em cujos entrudos
Grunhem olhares mesquinhos,
Em cujas caixas
Palpitam suspiros de bílis,
Em cujos esgares
O não é sim, o sim é não e tudo é nim –
Alando meu fado
Para que o credo, ainda que a nado,
Me faça progresso.

Vila do Porto, 2007-01-03

2006-11-19

Ouve(te)

Ouve!

Ouve dentro de ti

O crepitar do sangue

Que te banha,

Ouve!

Sente o apelo da pele,

Ouve-a como te impele

A tomar o manto

De um canto de ave,

Ouve!

Aceita o brado da tua alma

Que aspira a palma

A sombra

Suave

De idílico canto d’ ave!

Ouve!

Que, por vezes,

Por não ouvirmos, não vemos

O quanto queremos

Algo que temos,

Que por não ouvir

Tememos

E deixamos voar,

No tempo que perdemos,

A recear, a evitar,

O que tanto queremos…

E que tendo - não temos


V. F. Campo, 1999-05-27

Oposição

Na rua:

São esplendores, ilusão!

Ocultas.

N’ areia: tretas,

Onde espreitam gametas

Com árvores de verão.

2006-04-20

Maria

Dedicado a Maria Bolarinho

Maria!
Nome de Santa!
E santo nome de minha mãe.

Maria!
Que o mundo encanta!
E outra Maria também...

Maria!
A quem eu tanto pedia!..

E depois que cresci,
Em seus laços me prendi...
Oh! Maria!

Quem eu sempre pedia
És tu amor:
Maria,
Que em teus braços me rendi!

2005-09-18

O coração

Não sinto já no peito o coração…
Já o perdi,
Esvaído em sonhos!...

2005-08-05

Poeta pequeno

Intitulo-me poeta:
Um poeta pequeno!
- Falta-me ainda o sacrário
Que me leve além da meta
De ser pequeno,
Para ser poeta!

2005-06-26

Aqui jaz

Devaneio

Tua face:
Sedosa, no mimo, a frescura da rosa!

Teus olhos
Um ninho, um lago de ternura e carinho!

Teus lábios:
Mimosos… carnudos, fogosos!

Teus seios:
Plumas … leves como plumas!
Saltitam: e, altos, incitam, levitam nos olhos!

Teu ventre:
O limiar da semente, do fogo demente!
Onde mergulho, onde fagulho, onde me afogo!


E o olhar, como eu, ansioso!!!
Mas falta o alento,
Mas falta o intento…

Vila do Porto (Santa Maria – Açores), 2005-05-10

2005-06-18

Do acordar até

Acordo...
E vejo que estou só...
Que nada vivi!
Relembro hora a hora!
Como acordei só;
Enquanto o dia passa fatal,
Sem pressa, sem pejo, sem dó...
Num penoso arrastar...
E eu... sempre a suspirar...
A sonhar... a querer o inalcançável
E não paro de lembrar!
E lembro o quê?
De ti.. Oh! e sinto,
Sinto às vezes uma saudade tão forte,
Um desejo enorme de te abraçar
- Desejo por vezes insustentável -
Que nos olhos me põe explosivas lágrimas,
Que ali permanecem sem rebentar,
E a vista distante e túmida,
Distante, ausente e dorida...
Que os olhos ardem quase a estourar
Pois que neles não cabem peito e lágrimas,
Contudo ali sobem, ali - permanecem
E os olhos ardem periclitantes,
Pelos mil “sonhos” que neles nascem,
Pelos mil “sonhos” insustentáveis
Que vivem por ti, que fazes nascer,
Que neles vivem até morrer,
Que neles choram até renascer...
Durante o sono,
Desde o alvor,
Até a noite cair - a noite!
A noite linda! confidente amiga!
A escuridão balsâmica, compreensiva!...
E o mar que me chama!
Estendo-lhe então minha alma suspirosa,
Cansada e pálida
E o mar, o amigo mar,
Responde-me com ondas e vento,
Vento frio em que sinto
O beijo quente da tua boca...
Fecho os olhos...
Oh! como queria então envolver-te
Num carinho tão imenso como o mar,
Como queria então
Num forte abraço te amar!
Oh! E se num destes momentos surgisses
E que me visses
Como te vê meu peito, alma e coração,
E que aceitasses
Em meu cálido barco de ternura embarcar,
E navegar...
Meus dedos poetas,
Em tua sedosa pele,
Saberiam desenhar
Fogosos, românticos temas,
Mil poemas de amar,
Hinos de inebriar...
E meus lábios, venerantes,
Não te iriam beijar,
Antes, delirantes,
Sobre os teus passear,
Ateando
Em cada boca o desejo
De na outra voar.

E tudo isto p’ ra acontecer – bastava
Um dia eu abraçar
Um abraço do teu olhar
– Mas, de novo, após a noite... acordo...
E vejo que estou só...


Vila F. Campo, 98/03/15