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2005-04-27

O sonho

Tiraste-me tudo!
Tudo me levaste!
Mas o sonho...
Do sonho – tu não me privaste!
Nem do tempo...

Poesia

Poesia:
É dor, é alegria,
E se de viver!
Poesia:
É amor, é fantasia,
É sede de crescer!
Poesia:
É adejo, é utopia
E é nunca morrer.

Flor? Lume!

Bela! – Sim, divina até!
E depois? De que te vale,
Se em tanta beleza não vês
Que tal beleza é teu mal!?

O sol nos cabelos, Vénus
No rosto! – Estampado em ti:
Meu sonho! – Corri p’ ra ti,
Num golpe d’ asa de Eros!

Mas quê?! Engana tal flor!
Em ti beleza é gume,
É dor; te falta o perfume
Da flor que não és – és lume!

Que lume? Lume de flor;
Flor de ciúme – isto me prende!
E amor, insano se estende,
Demente, p’ ro corpo de flor!

Deixa – e desculpa! - amor,
O tempo irá te apartar
Dessa beleza a bailar,
Perdida de flor em flor!


Mirandela, 94/Jan.

Amor/Amar

Amor!
Não existe amor
Só amar:
Amar sem amor,
Amor sem amar...

Amar!
Amar é sofrer
É perder !...
É queimar o ver
É sentir arder...

Amor!
Amor é um verme
É dor
É açor, é condor

Amar
É perder-se
É dar-se
É roubar-se prazer

Amar...
Amar é morrer

Mirandela, 94/Maio

Amor

Amor:
Sinfonia dos sentidos,
Sonhos sem cor,
Lendas proibidas...

Mirandela, 94/Fev.

Libertação

Pequenina! Indefesa no planalto,
Bem no cimo da montanha enraizada,
Estava só, com o vento, lá no alto,
Ali bailando, quando este lhe soprava!...

Um dia quis ter asas p’ ra voar,
Como o vento passear onde quisesse!
Não iria jamais se deslocar
Enquanto a raiz assim quisesse!

Chega um dia cabisbaixo um passarinho;
Nesse ermo sua dor refugiara:
Deixara lá por baixo o seu ninho
E o carinho que o homem lhe roubara!

Em melodia?! Sussurrando o chamava
A pequenina! doce erva do planalto:
Ensina-me a voar – Lhe suplicava -
Como tu, livremente, lá no alto...

Tristemente, o passarinho a olhou,
Uma nuvem a bailar-lhe no olhar:
Primeiro a sua mágoa não deixou
Mas depois lá consegui articular:

- Sabes, não se encontra lá no alto a liberdade,
Nem por caminhos que tu possas caminhar;
Está dentro de ti, está na vontade
E na força que tu tenhas p’ ra sonhar!

Caiu no chão e logo após reverdeceu,
Quis poder o passarinho afagar...
Apesar do seu querer compreendeu
Que ser livre não é bem poder voar!!

Mirandela, 93/Jun.

De ilha em ilha

Meu peito nasceu com asas,
Com ilhas de amor sonhou!
De ilha em ilha voou,
Voando ficou sem asas!

De ilha em ilha voando,
Só áridas encontrou,
Tão áridas – e eu sonhando:
Sem asas a alma ficou!

Pois que por ilhas penou,
Por ilhas ficou sem asas;
Vendo a alma sem asas
Nunca mais ilhas buscou!

Sem asas, sem ilhas então,
A alma no chão, fremendo,
Jurou a si e ao vento
Quedar-se em erma prisão!

E quedou!
Em si mesma escondida!
Tanto em si se ocultou
Que em si mesma ficou sem vida!

Vila Franca do Campo, 97/Dez.

Idílio que doi

Num casar inocente,
Num alento constante
Vêm as águas cantantes
Nas rochas espraiar-se dementes!

Isentas às águas do mar,
Ao receber seus poemas,
Fazem as rochas da praia
As águas do mar floridas!

Alvas e puras as águas,
Como se noivas vestidas,
Despem o manto e então
Desmaiam de novo floridas!

Neste idílio constante,
De providente harmonia,
As pedras e águas do mar
Soltam gemidos a fio!

Gemidos! Gemidos!
Gemidos que a alma me assaltam!
E no assalto devastam
Os sonhos que são perdidos!

Vila Franca do Campo, 97/Nov.

Triste história

À minha Lili





Doce, clemente e carinhosa,
Lançando em mim a ternura
Que sempre emanavam teus olhos
- O olhar teu no peito me perdura!

Beijos que no corpo me ficaram
E na mente me vivem floridos
Vivem sedentos, sentidos
Neste lar meu da saudade!

Corridas loucas na memória,
Carícias, afagos – delícias!
Mas formada foi nossa história
Num triste mar de sevícias!

Momentos ledos, ledas horas,
Que minutos formavam os dias;
E se tédio fossem as horas
Alegre era que assim me fazias!

Oh e quanto, quanto eu senti
Cada um dos tempos separados:
Seguiam os dias arrastados,
Mas nunca como agora... Lili!

Vila Franca do Campo, 97/Set.

2005-04-11

Quem

Quem como tu
Será capaz de dizer
- Amor!?
Quem como tu
Será capaz de fazer
Amor!?

Quem como tu
Saberá estremecer
Meu corpo em flor?
Quem como tu
Saberá acender
A chama de amor?

Quem, diz-me quem,
Se é que há,
Quem? E diz-me também
Se me quererá!

Quem, agora que partes,
Irá me abraçar
Para adormecer?

Quem, quem saberá
Fazer reviver
Meu primeiro amor?

Quem, diz-me quem,
Se é que há,
Quem? E diz-me também
Se me quererá!

Quem, agora que partes,
Tomará teu lugar
E me fará amor?

Sei que o tempo passa

Sei que o tempo passa e as rosas terminam,
Murcham os cravos: esmorecem as flores!
Sei que o tempo passa e as ‘strelas que brilham
Apagam as luzes: vão-se esplendores!

Sei que o tempo passa – e passa meu tempo!!
Amaldiçoo o destino, blasfemo por vezes...
Depois choro, clamo aos céus, lamento...
É lindo reviver-te! recordar-te! – Mil vezes!!

Sim... sei que o tempo passa – e passou o meu!
Não te guardo rancor; e o tempo que foi meu
Nunca o trocaria (p’ ra quê ilusões!?)

Nem pela vida de um rei, nem por mil paixões!!!

2005-04-10

Meus olhos, teu peito, o mar e as fragas

O mar embate nas fragas,
Delas se parte em gemidos:
Ecoa em minh’ alma o som
Que sai das águas floridas!

Chorosas as águas do mar,
Por entre si mesmas escondidas...
Não deixam porém de sonhar
Que irão ser bem sucedidas!

E vão de novo às fragas,
Crendo ser bem recebidas
Mas uma vez mais, aos brados,
Se escondem em si fendidas!

Assim meus olhos – o mar,
Assim teu peito – as fragas:
Assim meus olhos floridos,
Assim minh’ alma fendida,
Assim como fragas teus olhos!

Vila Franca do Campo, 97/Dez.

A ti, princesa etérea

Se sentires uma brisa envolvente
Afagar teu corpo mimoso
Não julgues tratar-se do vento - não!
São as asas da minha mente
Que, suspirando poemas,
Se espraiam, deleitosas,
Na seda do doce teu corpo!!!