TEMPO DE OUTRORA
Por quanto queira esquecer
Estes loucos tempos de então:
Roga-me o peito que não.
Gravuras de sedução
Unidas em nós de prazer:
Tão lindas, ardentes manhãs,
A não ser, princesa, que rubras romãs
Saibam, queiram, anseiem: As tuas!
Tuas, sim... E venham as duas
Enfim, de novo, agora dementes.
O que tens, o que sentes?
Que tens que não voltas?
Um dia veio, e tu - feliz! - para mim
Entre sorrisos e palavras soltas.
Subiste-me ao peito!
Infindo instante! Saboreado
Na sombra de um leito!
Tão lindo, tão ledo
(Ocaso dos sentidos, aurora do prazer...)
Por quanto esteja em segredo
Ou ande em mim desvairado:
Rio, qual criança! ao te ver!
Tu, não sei. Recordar-te-ás?
Isso sim, concerteza; Porém
Antes ainda do fim, ir-te-ás?
Mais não sentes - aqueles tempos além
Ou outros mais acolá,
Rindo outrora, chamar-nos, agora tristes?
É! Sim, é verdade! A natureza insiste
Agora que a flor despontou.
Resvalemos,
Esqueçamos o mundo, o tempo...
Sejamos só um momento.
Percamos o siso.
O outro tempo, que não encantou,
Será tempo esquecido?
Tu, minha asa, romã sem til ao invés,
Anda, vem embriagar-me outra vez.
Mirandela, 94/Abril

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